Quarta-feira, 12 de Outubro de 2005

- Produzir riqueza


Produzir riqueza




    Não é fácil falar de certos assuntos, mas é necessário. Quanto mais
não seja, porque é preciso compreender a causa de certos fenómenos. Ou,
pelo menos, procurar explicações. E nada parece ter sido tão falado, nos
últimos tempos, como a crise "psicológica" que se vive em Portugal.

   Há muitas explicações, e talvez poucas soluções. E, todavia, estas têm
que ser encontradas. Uma análise correcta de algumas causas pode ajudar.

   Portugal é um País com um estranho "azar". Apesar da sua dimensão,
criou impérios que lhe foram dando riqueza sem que tivesse, internamente,
de produzir o que necessitava. Foi a África, a Índia, o Brasil, e de novo
a África. As riquezas entradas foram basicamente exportadas, sem valor
acrescentado. Um aproveitamento pobre e mal aproveitada da grandeza
adquirida. Tudo, ou quase, do que era manufacturado, era importado com os
lucros de tais riquezas. A produção regrediu, até, em certos aspectos, em
relação à época anterior à Expansão.

   Quando os Impérios desapareciam, um outro surgia, e o ciclo repetia-se.
Até que desapareceu o último. E, ao fim e ao cabo, o que ficou de
material? Pouco, muito pouco. Quase nada.

   Como referiu, e muitíssimo bem, numa carta publicada na Imprensa um
cidadão de Esposende chamado Carlos Sampaio, com quem adoraria trocar
impressões, o que ficou, em Portugal, foi uma mentalidade negativa,
concretamente "a noção de que não é fundamental contribuir para a criação
de riqueza, de que basta estar estrategicamente colocado por onde ela
passa".

   Para as elites associadas a este modelo de "desenvolvimento", produzir
valor acrescentado nacional era inútil, já que bastava ter lucros a
exportar matérias-primas e "ganhar dinheiro a importar os produtos de
qualidade acabados". A esta burguesia vendedora-compradora não-produtiva,
não interessava uma indústria portuguesa autêntica, que lhe faria
concorrência. Daí que algumas tentativas industrializadoras portuguesas
tenham sido por ela combatidas, e até aniquiladas.

   A pouca indústria que se foi desenvolvendo, contra ventos e marés, "foi
sempre considerada de segunda classe". Ainda hoje se nota uma mentalidade,
que não é nova, de considerar fraco e fora de moda o que se produz em
Portugal, e considerar bom tudo o que vem de fora. Este desprezo pelo que
por cá se faz "é um dos maiores problemas culturais" no País. Não se
motiva o aperfeiçoamento, nem o fazer diferente. A inovação não é
recompensada.E, sem inovação, dificilmente há exportação... salvo através
de empresas, muitas estrangeiras, que se servam de baixos custos de
mão-de-obra... e que "fogem" mal encontram outra de custos ainda mais
baixos. Encontrar uma marca portuguesa no estrangeiro é difícil. Algumas
"disfarçam-se" atrás de rótulos em inglês, francês, castelhano... para
assim conseguirem entrar em vários mercados, incluindo (ironia das
ironias!) o Português!!!

   É evidente que, em tudo isto, está instalada uma indefinição da imagem
do próprio País. "Uma internacionalização estará condenada se por detrás
dela tiver uma crise existencialista de valores".

   O nosso futuro depende de vários factores. Não nos podemos limitar "a
arranjar um bom lugar na margem do rio e esperar ir apanhando uns bons
peixes que passem". A qualquer momento alguém pode deixar de fornecer o
rio, ou poderá desviá-lo. É preciso "escolher que peixes temos condições
para desenvolver, proporcionar condições para os desenvolver, criá-los com
base em conhecimentos", e nunca ficar sentados à espera.

   Isto implica pensar ou repensar um país. Mais do que chorar, interessa
meditar, e encontrar soluções. É a única alternativa à morte por inacção.É
a única forma de justificar uma atitude optimista. Ao menos uma vez,
veja-se o exemplo espanhol. Não ficam os nossos vizinhos sentados, à
espera. Não! Reclamam, protestam, lutam pelo que julgam ser justo. Sobre
Gibraltar, por exemplo. E compare-se com a atitude portuguesa sobre
Olivença. Mas, aqui, detenhamos-nos essencialmente sobre aspectos de
organização interna da sociedade. O que há a fazer?

   Há que pensar na formação, e não tratar o Ensino como parente pobre. Há
que incentivar o trabalho, e valorizá-lo. E dar o exemplo. Como esperam
algumas elites que se trabalhe, se o exemplo que fornecem é negativo? E,
claro, há que recompensar de facto quem trabalha, principalmente quem
produz valor acrescentado.

   Tem de se dividir melhor a riqueza, um dos maiores males que afectam,
desde há séculos, o nosso País. Segundo o Instituto Nacional de
Estatística, os 20% da população portuguesa mais pobre recebe 5 % do
Rendimento Líquido Nacional, e os 20% da população mais rica recebe 7,6
mais do que os 20% mais pobres. Esta diferença é o dobro da verificada nos
outros países da União Europeia. Este quadro fica mais negativo se
acrescentarmos que os 10% mais pobres recebem 2,2% e que os 10% mais ricos
recebem 29%. Isto significa... 13 vezes mais!!!

   Há que incentivar causas, e não prometer ou procurar riqueza imediata,
pois esta só se consegue com objectivos mobilizadores que expliquem sem
margem para dúvidas os benefícios de alguns sacrifícios.

   Muito mais haverá a dizer sobre todas estas problemáticas, mas, de
momento, parece-me preferível terminar aqui mesmo, esperando apenas estar
a dar o meu contributo para uma reflexão geral em torno dos problemas que
afectam Portugal neste início de 2005.




       Carlos Eduardo da Cruz Luna

Estremoz, 17 de Janeiro de 2005 

 

Jornal de Olivença editou às 19:24

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1 comentário:
De Anónimo a 18 de Outubro de 2005 às 17:57
Não há dúvida. O atraso de Portugal, visto numa comparação com a Espanha, existe mesmo e assusta. Porém as causas do atraso são conhecidas e não existem mais. Enquanto tivemos as colônias procuramos tirar proveito delas. Foi esse proveito e a guerra colonial desastrosa que fez desviar a atenção do Portugal continental que ficou parado. Não temos mais colônias nem ditadores e a safra de políticos medíocres já deve ter acabado. Nota-se o crescimento do descontentamento que vai gerar o censo de vigilância. Os empresários Portugueses já entenderam que é preciso investir mais em Portugal ,que, no final das contas, mostra que a pátria mãe é sempre a melhor garantia da segurança pessoal e do capital. Temos a sociedade dos amigos de Olivença que cresceu e amadureceu; está pronta para agir .Por enquanto será através de pressão psicológica tão perturbadora quanto o terrorismo clássico para obrigar as partes a sentar á mesa, ate achar a melhor solução, na presença de representantes das nações, e da mídia; nada de reuniões secretas. Também estão surgindo outras sociedades de amigos de Portugal para agir como os amigos de Olivença; porém preocupadas com o crescimento do PIB, Precisamos do envolvimento sério dos mestres das universidades que podem mostrar a verdade dos resultados matematicamente. A maior empresa de Portugal é Portugal; esse Portugal que é de todos os Portugueses, não pode ser administrado somente por políticos que nem precisam ser formados. Uma parte dos políticos baseia a governança em filosofias que não são a matemática da verdade e por isso não chegam a soluções satisfatórias. A economia portuguesa não está bem; os portugueses já estão consciente disso e já começaram a agir. Portugal sempre tem os homens certos na hora certa para mostrar o nosso valor e surpreender o Mundo
bernardolopes@superig.com.br

Bernardo lopes da Rocha
(http://http;//lopesdarocha)
(mailto:bernardolopes@superig.com.br)

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