Domingo, 4 de Fevereiro de 2007

Português ensinado no país vizinho

Crianças espanholas aprendem português

Uma localidade fronteiriça, na raia espanhola, decidiu começar a ensinar português a 235 crianças, entre os três e os cinco anos. A ideia é que os alunos tenham a possibilidade de aprender dois idiomas em paralelo, aproveitando a facilidade com que adquirem conhecimentos linguísticos no início da fala. As aulas são ministradas por uma portuguesa que um dia decidiu experimentar a sua sorte no país vizinho e por lá ficou. O projecto é financiado pelo Gabinete de Iniciativas Transfronteiriças da Junta da Extremadura e os resultados, esses, não se fazem esperar.

"Fecha a porta", "senta-te", "levanta-te", "apaga a luz". Eis as expressões mais bem assimiladas pelas crianças que agora começaram a contactar com o português no Colégio Camilo Hernández, em Coria, concelho localizado a norte de Valência de Alcântara, junto à fronteira com Marvão. Pode parecer pouco, mas não é, de facto.

Basta levar em linha de conta que Pablo, de quatro anos, fecha a porta da sala, quando lhe pedem em bom português, mas o avô, de 56, hesita. "Fechar significa cerrar la puerta?", pergunta ao neto, que lhe responde afirmativamente. Manuel Rejas justifica que o nosso idioma "é muito fechado" e que apesar da proximidade com Portugal nunca se sentiu atraído pelo português e mesmo quando vem cá fazer compras só fala castelhano. "Vocês percebem sempre o que dizemos", remata.

A nora não pensa da mesma forma. Também ela sabe pouco, muito pouco, da língua da Camões e isso já lhe custou uma não promoção na carreira, tendo sido ultrapassada por uma colega, bem mais nova, num estabelecimento comercial local, justamente porque falava a nossa língua "quase correctamente". Por isso, decidiu pensar no futuro do filho. "Hoje, por aqui, o português é mais importante que o inglês. Quem não o dominar vai arrepender-se e não chega começar a aprender em adulto, porque depois há sempre coisas que vão faltar", alerta Cristina Soley, revelando que tudo fará para que o seu menino cresça a aprender castelhano e português, simultaneamente. "É a única hipótese", sustenta.

O discurso de Cristóbal Herrero, pai de uma menina com três anos, vai ao encontro desta ideia. Susana ainda pouco fala, mas já sabe que "perrito" se diz "cão" e que "deitar" significa "acostar". Mas o pai desta pequena vai mais longe, ao ponto de ter comprado cassetes de vídeo e DVD com desenhos animados, cujos diálogos são em português. "Talvez por trabalhar no sector hoteleiro e ter de contactar frequentemente com portugueses esteja mais sensibilizado para este fenómeno", refere, admitindo existirem palavras que "são quase imperceptíveis para quem não tem um ensino luso de berço".

Há quem não pense assim e encare mesmo com "muita desconfiança" esta recente aposta, olhando para as aulas de português com alguma indiferença. Maite Gomez acha que "as crianças não aprendem nada" e mesmo que aprendam alguma coisa, para esta mãe, "de pouco serve" para a vida do pequeno Juan.

É aqui que reside o maior desafio da professora Mónica Vieira Gonçalves. A docente admite ter vindo a debater-se com a reprovação de alguns encarregados de educação, que consideram a iniciativa supérflua. "Infelizmente, há pessoas com uma mentalidade muito fechada que acham que isto não serve para nada e ao princípio não é fácil", admite, dando conta de crianças que não manifestam qualquer interesse pelas suas aulas. "Nós sabemos que os miúdos são o reflexo dos pais e eu penso que quando um aluno não liga ao ensino do português está a sofrer uma influência que vem da própria casa", diz ao DN, garantindo já ter casos de pais que "torceram o nariz" ao projecto e que mais tarde deram a mão à palmatória.

"Os pais ficaram surpreendidos com a aprendizagem dos filhos, porque as crianças absorvem tudo, como esponjas. Isso tem contribuído para mudar, um bocado, a mentalidade desta gente", justifica Mónica Gonçalves, alertando que a maior prova da simpatia que esta aposta está a conquistar na Extremadura espanhola é a dificuldade em conseguir apoios do Gabinete de Iniciativas Transfronteiriças para o projecto, dada a quantidade de candidaturas que surgiram em toda a região.

Texto extraido do: DN Online

Jornal de Olivença editou às 16:15

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